COISAS DO JOSÉ

 

“O dever é uma coisa muito pessoal; decorre da necessidade de se entrar em ação, e não da necessidade de insistir com os outros para que façam qualquer coisa.” Madre Teresa de Calcutá

Relogio Seis e MeiaO relógio já marcava seis e meia da tarde, quando estacionei a moto e corri a registrar o ponto acreditando estar mais atrasado do que realmente estava. Minha coluna pedia em desespero para que me livrasse do peso da mochila que ela transportava e o trajeto do estacionamento ao Pronto Socorro pareceu-me muito mais longo que eu me lembrava. Em contrapartida meu corpo celebrava uma sensação de bem estar há muito não sentida. Estou de bem com o mundo, com a vida com o PS cheio, com tudo e desta forma chego ao palco do show da noite.

 hospitalberlinA porta vai e vem oferece resistência a minha passagem já denunciando a existência de uma maca a travar sua abertura e isto só acontece quando está superlotado. A profusão de macas e pacientes me deixa, por alguns instantes, inerte; observando o local, escolhendo o melhor caminho até os fundos e planejando uma forma de melhorar as condições.

Docinho e Edna, já receberam o plantão, mais uma hora e a Lindinha chega para, conosco, completar o time de enfermeiros. Na emergência as técnicas SD e LCN já estão a pleno vapor, com quatro pacientes sendo três em uma sala e um isolado por tuberculose na outra. Na admissão os nomes se repetem SD e LCC, mas as pessoas são outras e o trabalho ali também já começou. O corredor ficou por conta de AD (Glória), SH e CL.

Soldados-convalecientes-y-enfermeras-posando-en-un-hospitalEnquanto faço uma revisão na escala, observo a movimentação da equipe. Beijos de olá se misturam com brincadeiras verbais e trocas de informações sobre os pacientes. É incrível como um grupo tão heterogêneo consegue trabalhar de forma síncrona. Olho no relógio, exatamente uma hora após recebermos o plantão e o corredor já está organizado com os pacientes separados por sexo e sendo medicados. A medicação está um problema, por algum motivo deixaram faltar dipirona e paracetamol no hospital. Assim em caso de dor moderada resta usar tramal e, para as mais brandas, psicologia. Em caso de febre? Bem nestes casos tem o mercado negro. Auxiliares, enfermeiros e técnicos “contrabandeiam” de outros hospitais onde trabalham para que não fiquem a ver seus pacientes sofrer sem ter absolutamente nada a fazer a respeito. Realidade de nosso serviço público.

atend00065_1Primeiro SAMU da noite, rapaz 28 anos. Estava jogando futebol e ao dar um drible o corpo foi e o joelho ficou. Chora feito criança. Pudera, sua patela está deslocada, vai ter que reduzir. Chamo o ortopedista e após um bloqueio local colocamos o joelho do corintiano no lugar. Liberado, vai passar o feriado com uma tala e sem futebol.

Os bombeiros trazem um homem que acabou de bater o carro. O cheiro de álcool denuncia o motivo. Tem queixas diversas mas sem sentido, num momento dói o braço, em outro a perna, depois a barriga. Avaliado, raios x, nada a fazer. Mas não dá para liberar, vai passar a noite na observação.

Enquanto esperava recebe a visita da polícia.

- Boa noite. O corsa preto que bateu na avenida é teu?

- Sim, seu guarda. Um cara me fechou.

policial-tomando-nota-de-_4ddb95879eaa4-p- Sei. Bem isto aqui é teu também – disse o policial entregando um papel.

- O que é isto?

- Uma multa. Licenciamento vencido há mais de 30 dias.

Foi a última vez que ouvi a voz do paciente, se encolheu e ficou quieto o resto da noite.

Outra guarnição dos bombeiros, motoqueiro 28 anos. Bateu a moto em um carro. Teve sorte, somente arranhões. Medicado e liberado.

Mai um resgate e desta vez os rapazes nos trazem um capotamento, o rapaz parece bem, está choroso e bastante nervoso com a situação.

- Não podia ter acontecido – diz ele.

- Já aconteceu. Pode me dizer do que se lembra? – perguntei.

- Sei não moço, estou há 36 horas sem dormir. Fui fazer um serviço para ganhar R$100,00 e capotei o carro.

Com ele não aconteceu nada. Avaliado, medicado e liberado.

A MC me chama:

- Enfermeiro, você não quer tentar uma veia no paciente da emergência. Esta hipotenso e com um acesso que não está bom.

Fiz um comentário sobre o estado do paciente e fui para lá.

- Oi LCN, prepara o material para eu puncionar a jugular.

- Já está aqui.

Em instantes a veia estava pronta. Saindo da emergência a MC pergunta.

- E aí?

- Eu sou f### – respondi.

- E modesto.

Volto para admissão e a SD faz a mesma pergunta.

- Já está com acesso.

- Isto que é fogo – diz ela – a gente não consegue e ele vai lá e faz.

madagascarA partir daí a noite ficou calma. Um paciente aqui, outro aqui. Nada de extraordinário. No balcão aproveitamos para colocar a conversa em dia e falar amenidades. A AND me cobra, de novo, uma publicação com as frases do Enfermeiro J. A AD reclama que não escrevo todos os blogs e a PT completa:

- Quando não tem blog, parece que ninguém trabalhou (risos).

- Está bem vou publicar. E frase de hoje será: Com cuspe e com jeito.. (usada para situações em que devemos ir com calma para conseguir o que queremos).

Enquanto conversávamos, viajei mentalmente pensando no quanto este trabalho me dá prazer. Prazer pelo fazer, prazer pelo ser. Um trabalho que me completa e impele meus passos a cada dia em busca de melhoria.

Jantei dois lanches do Mac que a SD buscou para mim e fazia minha digestão quando a LCN chamou. O paciente da sala 01 parou. Encontro ela fazendo as compressões, chamamos o médico, mas desta vez não deu. No dia em que faria 48 anos, foi declarado morto. Coincidências da vida, ou da morte. Preparamos o corpo, ligo para a família e vou para a sala adiantar uma papelada que a AL preparou. Na volta encontro SDN na emergência com um paciente em óbito, vítima de um IAM fulminante não tivemos êxito na reanimação, e a Dra. AL, SD e PT, na admissão, as voltas com uma paciente em broncoespasmo. O que está morto não precisa de mim. Fico com elas na admissão ate levar a paciente para emergência. Melhorou, mas algo me diz que vai para o tubo.

Um rapaz entre se queixando de dor no peito, está pálido e eu o coloco em uma maca. Quando percebo o enfermeiro do dia está à porta para receber o plantão. Passo o plantão e minhas preocupações para ele.

Fim de plantão, AND e eu vamos pelo corredor, minha coluna sente novamente o peso da mochila mas minha cabeça está leve como uma pluma. Sensação de dever cumprido.

brindando um cafeMC enfermeiro do dia, que fazia parte de nossa equipe, esta fazendo extra na UTI hoje.

- Tudo certo lá, J. Vamos tomar um café.

- Vamos sim. – e lá fomos nós, celebrar a amizade com um café da manhã.

- Até amanha.

Cada um deve procurar a profissão que a sua vocação lhe pede e depois, aplicar-se a ela tenazmente, se quizer triunfar. Benjamin Franklin

Quando nada parece dar certo, vou ver o cortador de pedras a martelar numa rocha talvez 100 vezes, sem que uma única rachadura apareça. Mas na centésima primeira martelada a pedra abre-se em duas e eu sei que não foi aquela que conseguiu isso, mas todas as que vieram antes. (Jacob Riis)

São 18:30. Após assistir a mais uma derrota do Palmeiras, chego ao Hospital quase “em cima da hora, se formos considerar o meu padrão. Passo pelo relógio, registro minha entrada e vou direto ao Pronto Socorro.

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A visão é desoladora, o PS está lotado. Não há lugar para nada e a confusão de pacientes, acompanhantes e funcionários, ajuda a deixar a coisa ainda mais difícil. Recebemos o plantão e as meninas do corredor se apressam em organizar o local de forma que consigamos avaliar os pacientes e entender o que acontece com cada um deles.

Este mês, a escala de enfermeiros está apertada, com a AND de férias ficamos sobrecarregados e assim será até fevereiro. Hoje estamos MC e eu. A baixinha é ligeira, vai evoluindo e admitindo todos que chegam além de atender a intercorrências nas observações. Eu assumo a emergência e admissões e vamos tocando o plantão.

Meu plantão começa com atendimento a uma auxiliar de enfermagem de outra instituição, que acabara de se acidentar com uma agulha contaminada. Seu atendimento no local do acidente foi correto. Mas ainda resta uma infinidade de papéis a preencher, como a Docinho está ocupada me proponho a fazer esta tarefa que, devo confessar não gosto nenhum pouco.

Enquanto preencho os papeis do acidente observo um rapaz que está na sendo admitido. Está muito pálido a ponto de eu pedir que colham o um hemograma dele. Após ser colocado no leito ele já está corado e eu chego a conclusão que sua palidez era fruto exclusivamente do medo da punção venosa. Acabo os papeis, dou as orientações para a profissional acidentada vou atender ao primeiro SAMU da noite; motociclista, 25 anos, estava entregando pizzas quando chocou-se com a traseira de um carro. Recebo e, mesmo antes dos raios X, é possível ter certeza da fratura do punho. Na admissão JB e LC, rapidamente providenciam o acesso venoso para que possamos aliviar a dor do rapaz, pelo menos por enquanto já que ele ainda será submetido a redução cruenta o que dói muito.

No corredor externo sou abordado por um usuário que pede uma maca pois seu parente não consegue andar. Vou avaliar e encontro um rapaz de 17 anos chorando de dor enquanto tenta se locomover com o auxílio de muletas. Colocamos na maca, acesso venoso e só de deitar a dor alivia. O ortopedista avaliou, tramal, dipirona e observação. Vai passar a noite conosco.

Uma mulher de 40 anos chega já imobilizada. Passou no consultório e vai ficar internada, fraturou e luxou o cotovelo. Enquanto preencho os papeis da admissão vou conversando com a nora que passa informações como mecanismo do trauma, alergias, medicações de rotina etc. Ao terminar o histórico a moça pede para ficar como acompanhante, pergunto:

- Qual o grau de parentesco?

- Sou nora dela – respondeu a bonita moça.

- Casada como o filho dela, então.

- Não. Sou casada com a filha dela.

Fiz cara de quem não ligou para a informação e continuei as anotações e deixei que ela ficasse com a sogra.

Na emergência, recebemos uma mulher de 56 anos, dor precordial. Veio de um P.A, observação e exames. Vai ficar a noite toda. Mas está tranquila, sem dor e com os sinais estáveis.

Voltando do jantar encontro um senhor com 180 quilos e pressão de 22×13, veia, lasix e capoten. Três horas depois a pressão estaria controlada.

Mais um SAMU, idosa de 70 com mal de Alzheimer e vomitando, medicada, exames e internação.

Chega tanta gente que não temos mais macas, mesmo assim observo que as meninas mantem o corredor organizado de forma que o plantão flui com tranquilidade.

Mais uma internação, um auxiliar de enfermagem com colecistite. Está tranquilo, vai aguardar cirurgia para o dia seguinte.

São quase duas da manhã quando uma adolescente de pouco mais de 15 anos me procura:

- Moço, será que você pode me ajudar?

- Espero que sim. Se você me disser o que acontece…

- É que eu estava fazendo sexo com meu namorado e a camisinha estourou…

- Sim. E o que você precisa?

- De um exame pra saber se estou fértil…

- Não funciona bem assim… Podemos até calcular seu período fértil se você tiver a menstruação bem reguladinha, mas não é garantia de nada.

- Ferrou, sou toda desregulada…

- Inclusive da cabeça, né menina? Então vem aqui.

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Levei-a ao consultório onde ela recebeu a receita para a “pílula do dia seguinte” mais vinte minutos de conversa e ela saiu para comprar o medicamento. Espero que tenha adiantado

Uma idosa com suboclusão intestinal é a última paciente da noite e o nosso plantão chega ao fim.

Passo o plantão, lotado com mais pacientes que eu encontrei. Ainda arrumei tempo para convecer o médico a pedir uma tomografia de coluna para o rapaz da dor nas costas, sio cansado, mas com aquela sensação de que o melhor foi feito. Por mim e por minha equipe.

Até amanhã

Só aqueles que têm paciência para fazer coisas simples com perfeição é que irão adquirir habilidade para fazer coisas difíceis com facilidade.
(Johann Christoph Von Schiller)

 

Tem dias em que tudo que desejo é não ser eu.

Lendo “O Príncipe das Marés”, uma personagem relatava a sua psicanalista a difícil tarefa de ser homem.

Concordo com ele.

É difícil ser homem.

É difícil, pois não queremos ser para nós e sim para os outros, nunca estamos suficientemente felizes ou tristes para os outros. Tentamos ser felizes para os outros quando, na verdade, deveríamos seguir a prescrição de Freud a respeito “A felicidade é um problema individual. Aqui, nenhum conselho é válido. Cada um deve procurar, por si, tornar-se feliz.”

Nestes dias o poema de Drummond ecoa em minha mente

JOSE

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, Você?
Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
Você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?
Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?
E agora, José?
sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio, – e agora?
Com a chave na mão 
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?
Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse,
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José!
Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja do galope,
você marcha, José!
José, para onde?

Carlos Drummond de Andrade

Ser feliz sem motivo é a mais autêntica forma de felicidade.

Os homens distinguem-se pelo que fazem, as mulheres pelo que levam os homens a fazer.

As sem-razões do amor

Carlos Drummond de Andrade

Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.
Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.
Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.
Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

 

 

Memória

Carlos Drummond de Andrade


Amar o perdido
deixa confundido
este coração.
Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.
As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão
Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.

 

Crônica do Amor
Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso contrário os honestos, simpáticos e não fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo a porta.
O amor não é chegado a fazer contas, não obedece à razão. O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estelar.
Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fã do Caetano. Isso são só referenciais.
Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca.
Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se espera.
Você ama aquela petulante. Você escreveu dúzias de cartas que ela não respondeu, você deu flores que ela deixou a seco.
Você gosta de rock e ela de chorinho, você gosta de praia e ela tem alergia a sol, você abomina Natal e ela detesta o Ano Novo, nem no
ódio vocês combinam. Então?
Então, que ela tem um jeito de sorrir que o deixa imobilizado, o beijo dela é mais viciante do que LSD, você adora brigar com ela e ela adora implicar com você. Isso tem nome.
Você ama aquele cafajeste. Ele diz que vai e não liga, ele veste o primeiro trapo que encontra no armário. Ele não emplaca uma semana nos empregos, está sempre duro, e é meio galinha. Ele não tem a
menor vocação para príncipe encantado e ainda assim você não consegue despachá-lo.
Quando a mão dele toca na sua nuca, você derrete feito manteiga. Ele toca gaita na boca, adora animais e escreve poemas. Por que você ama
este cara?
Não pergunte pra mim; você é inteligente. Lê livros, revistas, jornais. Gosta dos filmes dos irmãos Coen e do Robert Altman, mas sabe que uma boa comédia romântica também tem seu valor.
É bonita. Seu cabelo nasceu para ser sacudido num comercial de xampu e seu corpo tem todas as curvas no lugar. Independente, emprego fixo, bom saldo no banco. Gosta de viajar, de música, tem loucura
por computador e seu fettucine ao pesto é imbatível.
Você tem bom humor, não pega no pé de ninguém e adora sexo. Com um currículo desse, criatura, por que está sem um amor?
Ah, o amor, essa raposa. Quem dera o amor não fosse um sentimento, mas uma equação matemática: eu linda + você inteligente = dois apaixonados.
Não funciona assim.
Amar não requer conhecimento prévio nem consulta ao SPC. Ama-se justamente pelo que o Amor tem de indefinível.
Honestos existem aos milhares, generosos têm às pencas, bons motoristas e bons pais de família, tá assim, ó!
Mas ninguém consegue ser do jeito que o amor da sua vida é! Pense nisso. Pedir é a maneira mais eficaz de merecer. É a contingência maior de quem precisa.

Arnaldo Jabor

Aprendendo com Neruda…

Soneto XLIV

Pablo Neruda

Saberás que não te amo e que te amo
posto que de dois modos é a vida,
a palavra é uma asa do silêncio,
o fogo tem uma metade de frio.

Eu te amo para começar a amar-te,
para recomeçar o infinito
e para não deixar de amar-te nunca:
por isso não te amo ainda.

Te amo e não te amo como se tivesse
em minhas mãos as chaves da fortuna
e um incerto destino desafortunado.

Meu amor tem duas vidas para amar-te.
Por isso te amo quando não te amo e por isso te amo quando te amo.

 

 

Saudade

Pablo Neruda


Saudade é solidão acompanhada,
é quando o amor ainda não foi embora,
mas o amado já…
Saudade é amar um passado que ainda não passou,
é recusar um presente que nos machuca,
é não ver o futuro que nos convida…
Saudade é sentir que existe o que não existe mais…
Saudade é o inferno dos que perderam,
é a dor dos que ficaram para trás,
é o gosto de morte na boca dos que continuam…
Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:
aquela que nunca amou.
E esse é o maior dos sofrimentos:
não ter por quem sentir saudades,
passar pela vida e não viver.
O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido

 

Soneto LXVI

Pablo Neruda

Não te quero senão porque te quero
e de querer-te a não querer-te chego
e de esperar-te quando não te espero
passa meu coração do frio ao fogo.

Te quero só porque a ti te quero,
te odeio sem fim, e odiando-te te rogo,
e a medida de meu amor viageiro
é não ver-te e amar-te como um cego.

Talvez consumirá a luz de janeiro,
seu raio cruel, meu coração inteiro,
roubando-me a chave do sossego.

Nesta história só eu morro
e morrerei de amor porque te quero,
porque te quero, amor, a sangue e fogo.

 

Dois amantes felizes não têm fim nem morte,
nascem e morrem tanta vez enquanto vivem,
são eternos como é a natureza.

Pablo Neruda

Amor Ateu

Elymar Santos

O amor não escolhe hora nem espaço
Pra unir no mesmo abraço
Um homem, uma mulher
O amor é vagabundo, meio tonto
E aproveita o desencontro
Pra fazer o que ele quer
Apesar de parecer amor errado
Não há culpa nem pecado em nosso amor fora da lei
Simplesmente vou seguir o meu desejo
Percebi o seu desejo
E é só isso que eu sei

Amor proibido
Amor ateu
Deixa em perigo você e eu
Mas é impossível dizer que não
Proibir a voz do coração

O amor é um mergulho no infinito
Se é pecado é mais bonito
E é só isso que eu sei
Mas tem horas que o amor é sufocante
Sinto isso nesse instante
Nesse amor fora da lei
Eu queria passear contigo agora
Te mostrar pra todo mundo e pras estrelas lá do céu
No entanto esse amor tão verdadeiro
Permanece prisioneiro de um quarto de motel

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